Reivindicar ‘raça’ no pós-colonialismo: Uma reflexão pessoal sobre a política da experiência racial

Em outubro passado, ao ler O Local da Cultura de Homi Bhabha, encontrei o seguinte verso poético:

“Estou aqui no seu poema-insatisfeita.” (1994:xxi)

Proveniente do poema Eastern War Time (ainda não traduzido), da feminista radical Adrienne Rich, este verso foi destacado pelo famoso crítico literário e autor pós-colonial por ser um importante exemplo de uma ‘posição política peculiar’ que é necessário fortalecer[1]. Pessoalmente, as palavras de Rich, pedem uma reflexão sobre a minha própria posição política enquanto mulher negra, em busca do meu lugar na academia e na área das Relações Internacionais.

Relações Internacionais é a disciplina de estudos que busca o conhecimento do que é internacional na política, na história e em seus acontecimentos. Entrei nesta área inicialmente quando tentava entender a politização das minhas próprias experiências enquanto mulher muçulmana racializada que cresceu na era pós 11 de setembro. Apesar do ethos eurocêntrico e patriarcal das Relações Internacionais, permaneci pela minha exposição ao que inicialmente me definiram como a política do ‘pós-colonial’, da qual fui desde então incapaz de me separar.

Foi um professor munido de uma cópia de Orientalismo, o aclamado trabalho de Edward Said publicado em 1979, quem primeiro me apresentou ao pós-colonialismo. Said nasceu na Palestina e foi educado nos Estados Unidos, tornando-se um autor que se utilizou da filosofia, da história da arte e da literatura para abordar teoria política. Ouvir as palavras que Said proferiu serem-me repetidas numa sala de aula predominantemente branca e de tendências conservadoras foi um momento decisivo na minha educação. O Orientalismo proporcionou-me uma experiência na qual eu podia finalmente rever-me: uma experiência onde o poder político não estava ligado a quem tivesse mais armas ou mais democracia, mas antes a quem possuísse controle político sobre a realidade do individuo racializado.

Aos 19 anos, eu já havia sido tanto vitimizada quanto empoderada pelas minhas experiências de violência racial. Cresci no norte do Canadá, porém ter imigrado da Arábia Saudita e ser muçulmana, enquanto visivelmente negra, foram fatores com consequências sérias tanto para mim quanto para a minha família – consequências essas que eu já havia então superado energeticamente ainda que de uma forma pouco habilidosa. Quando se deu o meu encontro com o pós-colonialismo, eu estava sedenta de reconhecimento intelectual das minhas próprias experiências de discriminação e procurava validar por meio da academia  que a verdadeira dimensão das hierarquias raciais com que me deparava no cotidiano não era pequena, que elas eram importantes e que denotavam a própria história a uma escala global. 

Percebi rapidamente que o Orientalismo de Said era somente a ponta do icebergue numa vastidão de teoria interdisciplinar voltada para as experiências históricas e atuais das pessoas de ascendência não europeia. Pessoalmente, o pós-colonialismo representa para mim uma enorme esfera interdisciplinar de análise política e de esclarecimento da violência racial, que aborda diretamente a mentalidade do Europeu, do Colono, da Branquidade e da forma como estas categorias se reafirmam a si próprias na sociedade. Para o pesquisador da pós-colonialidade, o discurso racial de antipatia estabelecido na era colonial, que opõe ‘pessoas civilizadas’ e ‘gente selvagem’, permanece enraizado nas relações internacionais contemporâneas ainda que de formas mutáveis. Por exemplo, ele existe no discurso de inimizade entre quem quer ‘fazer a América grande novamente’ e quem é categorizado como ‘terrorista’. A objetificação do corpo negro descrita por autores pós-coloniais como Frantz Fanon em Pele Negra, Máscaras Brancas (1952), está presente na objetificação do corpo negro denunciada por Ta-nehisi Coates em Entre o Mundo e Eu (2015).

No entanto, esta minha ligação pessoal com o pós-colonial também tem sido intelectualmente, e por vezes emocionalmente, desgastante. Isto deve-se ao controle pedagógico e racialmente severo que frequentemente caracteriza o ensino das Relações Internacionais na universidade. A descentralização de exposições na maioria ‘brancas’ sobre o estado do mundo é uma luta histórica assumida pelos autores pós-coloniais; uma luta que continua a ser notícia. Recentemente, isto ficou claro na controvérsia ocorrida na School of Oriental and African Studies (SOAS), onde os estudantes combatem a ausência de pensadores não-ocidentais no currículo disciplinar daquela instituição, exigindo assim uma reflexão mais crítica das questões raciais na sua educação.

Essa resistência leva-me a chamar a atenção para um dilema semelhante na disciplina de Relações Internacionais, onde o ensino do pós-colonialismo continua a minimizar o quanto a categoria ‘raça’ é significativa nesta área. A forma pedagógica como o pós-colonialismo é constantemente apresentado aos alunos, sem discussões adequadas sobre a experiência racial e as estruturas de poder racializadas existentes, é bastante problemática. Ao invés da questão central do pós-colonialismo ser a relevância da violência colonial e contemporânea face ao corpo racializado, apresenta-se a disciplina como um problema da linguística e da semiótica. Ou seja, como uma crítica essencialmente branca da linguagem e da razão.

Embora os pós-estruturalistas e os críticos teóricos sejam geralmente culpabilizados por esta situação, pode-se apontar o dedo a muitos outros que se identificam como pós-colonialistas mas dizem que para a teoria pós-colonial reconhecer e considerar ‘válida’ a experiência da violência racial, esta deve antes de mais ser entendida por meio da crítica literária e dos debates filosóficos franceses e alemães do século vinte. Nesse pensamento, a questão da experiência racial é separada do trauma físico descrito por autores africanos, caribenhos, árabes e sul-asiáticos no seu trabalho e passa a ser ensinada como consequência das suas influências educacionais brancas, passadas pelos seus ‘professores’. Um exemplo é a controversa relação entre o autor pós-colonial Edward Said e Michel Foucault.

‘O Encantador de Serpentes’, circa 1879, pintura a óleo. Jean Léon Gerôme (1824-1904).

Os argumentos lançados pelo ícone pós-estruturalista e filósofo francês, Michel Foucault, relativamente às relações entre poder e conhecimento particularmente aquelas elaboradas nas suas palestras da História da Sexualidade, são amplamente aclamadas pela crítica. Said, que foi claramente influenciado pelas ideias de Foucault no seu trabalho Orientalismo, distancia-se ainda assim do filósofo pela sua insistência em que a relação entre poder e conhecimento serve como elemento chave na estratégia política ocidental, onde o poder do conhecimento, abstrato numa fase inicial, foi eventualmente implementado tendo em vista a materialização de um projeto de dominação sobre a racialização dos ‘Outros’.

No entanto, como resultado da influência que recebeu de Foucault, e apesar da sua própria oposição, há anos que o trabalho de Said vem sendo qualificado como pós-estruturalista. Os influenciadores de Michel Foucault nunca são mencionados, mas as percepções de Said são sempre atribuídas a Foucault. A mesma armadinha tem sido usada para iludir outros autores pós-coloniais incluindo Frantz Fanon (junto a Jacques Lacan), Homi K. Bhabha, (junto a Jacques Lacan), e Gayatri Chakravorty Spivak (junto a Jacques Derrida).  Chegou ao ponto dos meus colegas me perguntarem como posso afirmar que entendo corretamente o Orientalismo se não aprofundei os meus conhecimentos de Foucault. Como posso discutir a diferença racial (ignorando que eu mesma sou uma pessoa racializada), se desconheço um dos filósofos anti-binários mais influentes [Derrida] do século vinte?

Como mulher negra, tem sido difícil processar estas instâncias de racismo intelectual onde se argumenta que uma experiência de violência racial que o povo negro conhece profundamente, tem primeiramente de ser validada pela escrita de uma mão mais velha e branca, e que os autores racializados de quem me orgulho não são jamais o produto real das suas próprias experiências subjetivas de alienação, mas antes resultado da sua educação branca.

E o que isto significa para estudantes negros presentes na sala de aula diariamente? Devemos levar em conta as repercussões das nossas ações quando o Orientalismo cessa de ‘pertencer’ ao individuo racializado que tenta compreender as suas próprias circunstâncias, e em vez disso se torna propriedade do filósofo branco ensinando a forma deste descortinar o mundo como doutrina de evangelho. O que significa reduzir uma marginalização racial a um problema mais generalizado da opressão linguística, abstrato e filosófico, ao invés da opressão corporal e material que é na realidade? O que acontece quando o estudante racializado que lê Orientalismo antes da História da Sexualidade escuta que aprendeu da ‘forma errada’? O que é encorajado quando as experiências de vida de estudantes negros e a legitimidade de outros reconhecidos acadêmicos racializados são regularmente desacreditadas, e nos dizem para consultar consciência racial em textos sobre o logocentricismo e a metafísica ocidental?

‘Banhos de Harém’, circa 1876, pintura a óleo. Jean Léon Gerôme (1824-1904).

Ao contrário da maioria dos professores de Relações Internacionais eu não tive o privilégio de observar a categoria raça de forma abstrata. Nem quero. É necessário que haja uma consciência de como é desmoralizante ser obrigada a articular a nossa experiência pessoal da violência racial por meio da surdez de textos sobre linguística. O que pode ser satisfatório para estudantes negros é a capacidade de se posicionar conceitualmente, utilizando esclarecimentos políticos partilhados por autores que abordam diretamente a experiência racial e as complexidades de existir numa ordem mundial governada pela supremacia branca. E se for para ligar a experiência racializada na escrita de autores negros aos autores brancos, que seja de uma forma onde se trocam aprendizagens, onde será o individuo racializado a ensinar ao filósofo francês que…

O racismo opera pela determinação de graus de desvios relativos à face do Homem Branco, que visa integrar traços inconformados em movimentos progressivamente mais excêntricos e retrógrados, por vezes tolerando-os em lugares e condições específicos, num ghetto específico, outras vezes apagando-os do muro…[2]

O meu próprio trajeto intelectual ensinou-me que não é o conhecimento que recebemos que nos cria, mas antes o que fazemos com esse conhecimento, e essa é uma mensagem que levo muito a sério. Estou aqui no meu próprio poema de pensamento intelectual insatisfeita pela natureza daquilo que também eu serei, como Said, como Bhabha, como Fanon, um dia questionada; sobre a qual acadêmico ‘realmente’ atribuo o meu conhecimento.

Se e quando isso acontecer, espero ter a coragem para atribuir o meu conhecimento às tradições de autores negros, à sua resistência coletiva e contínua face ao pensamento intelectual branco, e aos seus esforços para reivindicar a experiência racial dentro do pós-colonialismo, da pedagogia e do estudo das Relações Internacionais.

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Notas:

[1] Bhabha, H. (1994). The location of culture (1st ed., p. xxi). London: Routledge.

[2] Lorraine, T. (2011). Deleuze and Guattari’s immanent ethics (1st ed., p. 55). Albany: State University of New York Press.

Este artigo foi originalmente escrito em inglês por Amal Abu-Bakare e editado
por Xavia Warren para Media Diversified
(https://mediadiversified.org/2017/02/07/reclaiming-race-in-postcolonialism
-a-personal-reflection-on-the-politics-of-the-racial-experience/), 
no espaço acadêmico do site, que tem a curadoria de Yasmin Gunaratnam.

Veja o perfil de Amal na área de autores. 
Para mais informações e para usar este artigo entre em contato com 
henna@mediadiversified.org.
Imagem principal: Edward Said, intelectual palestino, retratado no Mural 
Cultural da Palestina, na Associação de Estudantes (edifício Cesar Chavez), 
da Universidade de San Francisco State. 
O retrato ocupa o lado direito da composição. Na base: à direita do autor, 
vários dos seus livros, e à sua esquerda um selo púrpura com o seu nome, 
escrita em árabe e as datas do seu nascimento e morte (1935-2003). 
Usa gravata vermelha e à volta dos ombros uma Kuffiyya, acessório tradicional
simbólico da luta palestina no mundo. 
À esquerda no mural, a cidade de Jerusalém, onde Said nasceu, com o seu templo 
e o muro das lamentações. Por trás, a ponte de Golden Gate representando a 
cidade de San Francisco onde o mural foi concebido. 
No muro, as palavras 'Eu sou daqui, eu sou de lá'. 
Outros elementos usados no mesmo lado da composição são dois casais que 
dançam músicas tradicionais da Palestina, uma oliveira e crianças lendo.
Para saber mais sobre a iconografia deste mural consulte:
http://artforces.org/projects/murals/usa/edward-said-mural-sf-state-university

 

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