Possibilidade e Arte da Palestina: Uma Análise de “Made in Palestine”

Este artigo foi originalmente publicado em inglês por Kathy Zarur, 
primeiro com o título “Looking at the Levant” 
("Olhar Sobre o Levante") na revista Art in America 
(v.94, no. 8, Setembro 2006, p. 154-7); 
e numa segunda vez, tal como reproduzido aqui, 
na publicação Nebula, (5.3, Setembro 2008, p. 49-59). 
Veja o perfil de Kathy na área de autores. 
Para mais informação e para usar este artigo contate a autora para 
zarurk@gmail.com.

John Halaka detailA Palestina é um lugar sobrecarregado com o fardo da representação[i]. A maioria das imagens projetadas pela mídia ocidental é tendenciosa, mostrando a defesa israelense contra os chamados militantes e terroristas palestinos. Esta narrativa cuidadosamente elaborada encaixa perfeitamente no imaginário ocidental, e mostra desconhecimento das circunstâncias históricas da situação. Considerando os interesses econômicos norte-americanos e europeus na região e a utilização da mídia na formação da opinião pública, é difícil antecipar mudanças em um entendimento das circunstâncias que possa ser descrito em termos simples como a resistência a uma ocupação ilegal e desumana. Desconhecimento da situação na Palestina serve para aumentar opiniões de apoio a Israel e suas atividades. É aí que reside a importância da exposição de arte contemporânea Made in Palestine, pois a arte tem o potencial de comunicar amplamente perspectivas pouco representadas, com uma linguagem que requer um envolvimento além do nível simplista apresentado pela mídia.

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Mapa da perda de território palestino. 1946-2000.

Made in Palestine oferece ainda uma generosa mostra da história da arte moderna e contemporânea da Palestina, virtualmente desconhecida das audiências ocidentais. Trabalhos de artistas já bem estabelecidos como Samia Halaby, Suleiman Mansour e Rula Halawani foram apresentados lado a lado com peças de artistas emergentes. Desde então, mais de metade dos artistas já emigraram da sua terra, mas muitos vivem ainda no Oriente Médio, refletindo sobre a diáspora e a experiência da ocupação como aspectos inerentes à realidade palestina. Os artistas manipulam cores e formas para atrair visualmente a audiência ás suas perspectivas subjetivas e muitas vezes pessoais, resultando num envolvimento intuitivo e visceral com a arte. Outra importante contribuição desta exposição diz respeito ao legado artístico e cultural. A produção de belas-artes está associada com a existência de uma civilização bem estabelecida e educação superior. Ao expor para uma audiência norte-americana o trabalho de artistas palestinos, tanto dos já estabelecidos quando dos jovens contemporâneos, Made in Palestine afirma com clareza que sim, que existe uma comunidade ativa, saudável e vibrante trabalhando nas áreas da arte e da cultura.

Made in Palestine abriu em 2003 no Station Museum de Houston no Texas, e foi a primeira exposição de arte palestina num museu dos Estados Unidos[ii]. A mostra foi criada por James Harithas, diretor de museu e curador conhecido pelo seu engajamento político e projetos sociologicamente críticos como o Frontera 450+, que focava nos constantes desaparecimentos e assassinatos de mulheres em Juarez no México[iii]. Por ser dedicado a práticas artísticas contemporâneas focadas na critica de questões políticas, culturais e sociais, Harithas e sua equipe contataram a artista e historiadora de arte palestina Samia Halaby com a ideia de produzir uma exposição de arte da Palestina. Com os co curadores Gabriel Delgado e Tex Kerschen, Harithas viajou com Halaby pela Jordânia, Síria e Palestina para visitar os estúdios de artistas palestinos, cortejando os mais bem sucedidos para a exposição.

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Parry, Nigel (nigelparry.net). Montagem da exposição Made in Palestine (em cima) e noite de abertura (em baixo), Galeria The Bridge, Nova Iorque, 2006.

Harithas fez planos para produzir uma exposição itinerante que percorresse os Estados Unidos, mas apesar do pedigree dos artistas e dos muitos trabalhos notáveis escolhidos para a exposição, encontrar espaços não foi tarefa fácil. Recebeu 90 rejeições de vários museus e centros de arte. Amigos em museus revelaram que as instituições temiam perder financiamento por exibir arte palestina. Finalmente em 2005, dois pequenos centros de arte – SomArts Cultural Center em São Francisco na Califórnia e a T.W. Wood Gallery and Arts Center em Montpelier no estado de Vermont – aceitaram receber a mostra. Quando foi preciso encontrar um espaço em Nova Iorque, Halaby interveio com antecedência empregando os esforços de Al Jisser (“A Ponte” em árabe), uma organização de Nova Iorque fundada em 2001 para promover artistas árabes internacionalmente. Foram três anos de campanha para captação popular, pois também ela não conseguia encontrar um museu ou galeria para receber a mostra. Com o apoio do Station Museum, Al Jassir conseguiu 100.000 dólares aproximadamente, alugou e arrumou um sótão simples no bairro de Chelsea em Manhattan ao qual chamou The Bridge. Made in Palestine abriu em Nova Iorque a 14 de março de 2006. Foi um completo sucesso, a mostra durou uma hora extra e recebeu 5000 visitantes. A manifestação de Made in Palestine em Nova Iorque foi ligeiramente diferente da original no Station Museum. Alguns trabalhos como o Memorial às 418 Vilas Palestinas Que Foram Destruídas, Desalojadas e Ocupadas por Israel em 1948 (Memorial to 418 Palestinian Villages Which Were Destroyed, Depopulated and Occupied by Israel in 1948), de Emily Jacir, uma tenda de refugiado bordada, eram demasiado caros para transportar. Apesar disso, até em sua versão abreviada, a exposição revelou respostas inovadoras e visualmente envolventes numa situação política mergulhada em tumulto.

Samia Halaby nasceu em Jerusalém em 1936 e atualmente vive na cidade de Nova Iorque. A sua contribuição para a mostra, Palestina, do Mar Mediterrâneo ao Rio Jordão (Palestine, from the Mediterranean Sea to the Jordan River, 2003) de 3,5 metros, é uma composição de pinturas acrílicas em pedaços de tela e papel. Formas orgânicas variadas são coladas e cosidas compondo faixas. Cada instante da instalação de Halaby, um processo que envolve coser e colar cada forma orgânica, produz uma versão diferente do trabalho. Isto reflete o interesse da artista em jazz de improviso e composições musicais rítmicas, bem como a flexibilidade e fluir exigidos da sua experiência da diáspora. Ela evoca a topografia palestina com uma paleta que vai de amarelos e laranjas vivos a verdes florestais e azuis noturnos. O trabalho de Halaby sopra beleza e poesia numa paisagem predominante representada como devastada pela guerra. O titulo do seu trabalho fala da Palestina como era antes da brutal criação de Israel em 1948, lembrando o espectador de que o mapa atual da região, pontuado de assentamentos e rasgado por estradas secundárias e um muro apartheid, é apenas temporário.

Samia Halabi
Samia Halaby, Palestina do Mar Mediterrâneo ao Mar da Jordânia, 2003, acrilico sobre tela e papel, 215cm x 391cm.

Nida Sinnokrot nasceu nos Estados Unidos em 1971, cresceu na Algeria e mora na cidade de Nova Iorque. O seu trabalho, Pedras Revestidas de Borracha (Rubber Coated Rocks, 2002) é uma instalação composta de pedras lisas meio cobertas por borracha – uma alusão às balas de borracha usadas contra atiradores de pedras palestinos[iv]. A mistura de materiais sintéticos e naturais criados por Sinnokrot comenta sobre vários níveis do cotidiano palestino. Apesar da aparência simples, o processo de produção foi complexo requerendo precisão no tempo e temperatura. Na Bridge Gallery, centenas destas pedras revestidas de borracha foram alinhadas no chão ao longo de uma das paredes do amplo espaço do sótão. O alinhamento da instalação sugere uma fila de pessoas, circunstância forçada frequentemente sobre os palestinos quando estes tentam atravessar os postos de controlo que regulam as idas e vindas da Faixa de Gaza e da Cisjordânia. Rubber Coated Rocks ainda não foi testado em campo[v].

Nida Sinnokrot, Rubber-Coated Rocks, rocks and rubber, installation dimensions variable,2002
Nida Sinnokrot, Pedras Revestidas de Borracha, pedras e borracha, instalação de dimensões variáveis, 2002.

John Halaka nasceu no Egito em 1957 e atualmente reside em San Diego. A sua contribuição para Made in Palestine foi uma impressionante tela de cerca com seis metros em tons cinza e branco, com o titulo Roubados de Sua Identidade e Levados da Sua Terra (Stripped of Their Identity and Driven From Their Land, 2003). A técnica formalista do artista permite que as figuras aparentem emergir da profundidade da tela. Halaka criou os corpos na pintura carimbando as palavras “esquecido” e “sobreviventes” e produzindo um efeito pulsante de corpos anônimos recuando no espaço, esbatendo-se no fundo como que tentando entrar na cena. Halaka exclui propositadamente marcas de identidade, ressaltando a universalidade da deslocação e do exílio. Além disso, o tamanho natural das figuras puxa a participação do espectador, levantando um auto questionamento: sou vitima, agressor ou ambos? A paleta reduzida cria um jogo de representação em memória da fotografia a preto e branco. A fotografia supostamente representa uma cena real, “que aconteceu.” Roland Barthes levantou essa ideia em suas digestões sobre a fotografia, onde explicou que a fotografia sempre se refere a um passado que é por definição irrecuperável[vi]. Ao evocar o suporte supostamente objetivo da fotografia por meio de um processo de criação de imagem artesanal e portanto subjetivo, Halaka atenua a fronteira entre o real e a ficção, entre o passado, o presente e o futuro. As estratégias formalistas e conceituais de Halaka não dão respostas, apenas geram mais perguntas.

John Halaka
John Halaka, Roubados da Sua Identidade e Expulsos da Sua Terra, 1993/1997/2003, da série: Sobreviventes Esquecidos, carimbado a tinta e acrílico em tela, 220 cm x 690 cm.

Mustafa Al Hallaj (nascido em 1938 em Haifa) criou a peça mais chamativa da mostra, Auto Retrato como Deus, o Diabo e o Homem (Self Portrait as God, the Devil, and Man, 2000).  Oito gravuras cortadas em placas de masonite combinam o antigo e o moderno, criando uma narrativa composta horizontalmente que projeta o Eu como homem, deus e diabo. Al Hallaj abordou a Palestina de um ponto de vista transhistórico, integrando lendas Canaanitas, contos populares e ícones culturais palestinos até ao presente. O trabalho massivo apresenta representações de híbridos humanos/animais reminiscentes dos trabalhos de  Hieronymus Bosch. Tragicamente, Al Hallaj morreu tentando salvar a gravura original de um fogo em seu estúdio em 2002. A gravura exposta na mostra foi criada pelos seus alunos na União de Artistas Palestinos.

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Mustafa Al Hallaj, Auto-Retrato como Deus, o Diabo e o Homem, 1994-2002, gravura em chapa de masonite 35 cm x ~11 m. Em baixo: detalhes.

Sendo a fotografia uma linguagem da mídia, a sua utilização na prática da arte pode pender para o lado do jornalismo. Os artistas que escolhem se afastar das representações óbvias devem assim tomar a prática fotográfica conceitualmente. A série fotográfica de Rula Halawani Incursão Negativa (Negative Incursion, 2002) inclui os negativos de fotografias a preto e branco mostrando o rescaldo de uma incursão devastadora de Israel na Cisjordânia em 2002. O seu uso da técnica do negativo não permite um olhar rápido e superficial, obrigando a uma analise intensa das cenas representadas, como a de uma família desalojada sentada numa tenda em frente à sua casa demolida.

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Rula Halawani, Imagens da serie: Incursões Negativas, 2002, negativo preto e branco , ~86cm x ~121cm

A série de Noel Jabbour, Lugares Vagos (2000-01) consiste em retratos de grandes dimensões representando famílias palestinas que perderam familiares na guerra. Os membros das famílias posam rigidamente, enfrentando a câmara com os semblantes tristes, estoicos. Os retratos familiares incompletos tornam-se inteiros com a inclusão de um retrato em moldura daquele que em muitos casos foi um jovem mártir. A combinação que Jabbour faz do formato de retrato formalista e da qualidade instantânea da luz natural, confere à fotografia uma inquietude igualada pelo fragmento fotográfico do filho perdido. A sua estratégia lembra os daguerreotipos do século XIX, sinalizando uma crença na durabilidade e transculturalidade do poder das imagens.

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Noel Jabbour, Familia Al-Azzami, Beit Lahya, Gaza, 2000, da série: Lugares Vagos, Gravura, 127 cm x 101 cm.

Conto de uma Árvore de Vera Tamari, iniciado em 1999 e em continuidade, centra na destruição pelo exército israelense das oliveiras criadas e cuidadas por palestinos. Uma fotografia a preto e branco transferida para acrílico e mostrando uma velha oliveira foi pendurada sobre uma plataforma com centenas de pequenas oliveiras de cores vibrantes moldadas em cerâmica. O uso de preto e branco por Tamari torna a imagem da oliveira ainda mais icônica. Esta árvore é um símbolo da herança cultural, econômica e espiritual palestina. Enquanto a imagem de grandes dimensões paira sobre as pequenas árvores pintadas à mão, a justaposição traz à memoria que a produção de cultura e a herança permanece nas mãos de indivíduos trabalhando colaborativamente.

Vera Tamari
Vera Tamari, Conto de uma Árvore, cerâmica e foto transferência em chapa acrílica: ~152cm x ~154cm; plataform: ~198cm x ~157cm x ~22cm; árvores de cerâmica: variáveis, aprox. ~7cm de altura, 1999-atualmente (?).

O significado de Made in Palestine toca duas frentes – o potencial da arte para entendimento pessoal do social, cultural e político, e a sua contribuição para a área da história da arte. No caso da Palestina, um lugar onde o simples ato de levantar uma bandeira só foi legalizado em 1993 com o Acordo de Paz de Oslo, a exposição oferece às audiências uma forma única de tratar o lugar, os temas com que os palestinos se debatem e a arte que produzem. A arte pode assumir um papel fundamental se o espectador se engajar honestamente com as questões, problemas e chamadas de atenção que apresenta. Só assim se pode verdadeiramente apreciar as perspectivas únicas das vidas múltiplas “Made in Palestine”.

Made in Palestine estreou no Station Museum of Contemporary Art em Houston, [3 de maio-3 de Outubro, 2003]. Viajou para o SomArts Cultural Center em São Francisco [7 a 22 de abril, 2005]; T.W. Wood Gallery and Arts Center, em Montpelier [18 de Outubro a 20 de novembro, 2005]; e The Bridge Gallery, Nova Iorque [14 de março-27 de maio, 2006].


[i] Por “Palestina,” refiro-me à Cisjordânia, Faixa de Gaza e o que é conhecido por Palestina 48, a terra ocupada em 1948 que agora é conhecida por Israel.

[ii] Samia Halaby foi muito generosa em me conceder acesso ao seu artigo não publicado, de onde retirei informação sobre o inicio, a pesquisa e as questões relacionadas com a exposição Made in Palestine.

[iii] Pensa-se que estes assassinatos sistemáticos estejam relacionados com a presença de corporações transnacionais, apoiadas pelos Estados Unidos e México, na região da fronteira de El Paso no Texas e Juarez. Para um relato sobre a relação entre gênero, representação e os assassinatos na fronteira, ver Fregoso, Rosa Linda. MeXicana Encounters: The Making of Social Identities on the Borderlands. University of California Press, 2003.

[iv] Balas de borracha são balas de metal com cerca de 1 a 2 mm, revestidas de borracha, que quando usadas tornam “impossível evitar ferimentos graves em regiões vulneráveis do corpo como a cabeça, o pescoço e o peito, levando a mortalidade, morbidade e deficiência substanciais.” Ver http://electronicintifada.net/content/misleading-terminology-rubber-bullets/4000, 03/12/2014.

[v]  Nida Sinnokrot por telefone com a autora em 27 de Julho de 2008.

[vi]  Barthes, Roland. Camera Lucida: Reflections on Photography. Richard Howard, trans. New York: Hill and Wang, 1981.

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