30 anos de “detono”

T-shirt commemorating 30 years of Pixação in Belo Horizonte: a wearing sheet with dozens of "detonas" or tags.

Foto: Camiseta comemorativa de 30 anos de pixação em Belo Horizonte: folhinha para vestir com dezenas de detonas ou prezas.

Em 2013, um grupo de pixadores de Belo Horizonte comemorou “três décadas de detono”, celebrando o fato de que a pixação segue firme e forte na capital mineira, enfrentando, como é próprio de seu espírito transgressor, o recrudescimento da repressão nos últimos anos[i].

Foi em meados dos anos 1980, portanto na fase final da ditadura militar, que começou a aparecer em Belo Horizonte, assim como em outras metrópoles brasileiras, a forma específica de pixação da qual tratarei nestas notas publicadas em contramaré. Pixação com “x”, seguindo a grafia adotada por seus praticantes para expressar a forma como se apropriam da cidade e sem relação com os significados apontados nos dicionários.

Como grafismo urbano, a pixação caracteriza-se pelas letras estilizadas criadas pelos próprios pixadores, compondo os chamados alfabetos, usados por eles nas prezas ou detonas, as assinaturas de seus nomes escritas em espaços públicos. A tais grafismos corresponde um habitus, conceito do sociólogo Pierre Bourdieu aqui entendido como uma disposição para sentir, pensar e agir incorporada pelos pixadores, fazendo da pixação um estilo de vida e uma cultura urbana[ii].

Antes das assinaturas, a escrita de nomes de bandas, principalmente dos gêneros metal, punk e hardcore, funcionou como um esboço do que viria a ser a pixação. Os primeiros alfabetos foram inspirados pelas letras de logotipos de grupos como o britânico Iron Maiden, o norte-americano Metallica e o paulista Ratos de Porão.

Mas foi uma banda local que motivou um pré-adolescente belo-horizontino a estrear na pixação, na segunda metade da década de 1980. “Sepultura foi a primeira coisa que pixei”. Com essa frase começou a me contar sua história GG, um veterano da velha guarda da pixação ainda na ativa. Ele é o atual presidente dos Pixadores de Elite (PE)[iii], galera fundada em 1992 a partir da reunião de pixadores que se destacam pelo ibope, reconhecimento e prestígio entre seus pares por detonar um alvo muito visado ou por ter uma preza veiculada na mídia, por exemplo.


[i] Um marco desse recrudescimento da repressão à pixação em Belo Horizonte foi a prisão dos Piores de Belô, em 2010. “A primeira iniciativa [do poder público com a finalidade de impedir que a prática da pixação se disseminasse pela cidade] consistiu em prender seis jovens com idade entre 21 a 27 anos praticando o crime de formação de quadrilha para a prática de pixação. Em seguida, a Delegacia Especializada para combater a pixação foi inaugurada na metrópole. Ao mesmo tempo, o projeto intitulado Movimento Respeito por BH foi implantado com três frentes de atuação: repressão qualificada, sensibilização social e limpeza, mobilizando associações comunitárias e a iniciativa privada” em Pixação em Belo Horizonte: identidade e transgressão como apropriação do espaço urbano, artigo publicado por Flávia Cristina Soares na revista Ponto Urbe 12, de agosto de 2013. http://www.pontourbe.net/edicao12-artigos/274-pixacao-em-belo-horizonte-identidade-e-transgressao-como-apropriacao-do-espaco-urbano.

[ii] Conferir O sujeito-pixador: Tensões acerca da prática da pichação paulista, de Daniel Mittmann, editora Multifoco, 2013, p. 176.

[iii] Para mais informações sobre a formação da PE (Pixadores de Elite) e sua atuação hoje, sugiro a leitura do artigo de Flávia Cristina Soares citado na nota 2.

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