O Mal-Estar na Teoria Interseccional: Interseccionalidade nas Teorias Viajantes

Nota da tradutora sobre o título: Tal como no original ‘Intersectionality and its discontents’, aqui traduzido ‘O mal-estar da teoria interseccional’, sigo a mesma referência da autora: o texto de Sigmund Freud que no inglês foi intitulado ‘Civilization and its discontents’ e no português, ‘O mal-estar na civilização’. O mesmo para o ensaio ‘Traveling Theory’ de Edward Said, traduzido para português no plural, ‘Teorias Viajantes’.

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Introdução

“Por vezes os paradigmas estruturantes das nossas vidas são tão poderosos que nos fazem crer que trabalhamos pelo progresso quando na realidade reforçamos esses mesmos paradigmas.” (Grillo, 1995: 16)

A interseccionalidade ou teoria interseccional tornou-se um importante recurso do trabalho de pesquisa feminista, apesar dos contínuos debates gerados em torno da sua definição específica. Desde que o termo surgiu, e a sua área de estudos foi estabelecida no final da década de 1980, foram produzidos inúmeros artigos, volumes e conferências, dando origem a uma nova fase de estudos feministas e de gênero. No entanto, ao longo dos últimos anos, as críticas crescentes à teoria interseccional vem pedindo que as feministas reflitam sobre o termo, a sua genealogia e o seu futuro. Um exemplo disso são as várias feministas que ponderam sobre a questão de como a teoria interseccional trata questões de imperialismo e transnacionalidade (Spivak, citada em Edkins & Vaughan-Williams, 2009; Patil, 2013). Teóricos pós-estruturalistas vêm colocando questões sobre a natureza do tema face à pesquisa interseccional (Butler, 1989: 143), e teóricos de crítica racial vêm se dedicando à problemática de como a pesquisa interseccional aborda o tema racial (Nash, 2008). Tais análises críticas manifestam preocupações relativas à obliteração das origens radicais da interseccionalidade, à sua aplicação generalizada enquanto ‘a teoria’ que serve todas as feministas, e à higienização da interseccionalidade pelo feminismo liberal. Myra Marx Ferree chamou a atenção para ‘A ideia da interseccionalidade enquanto ponto de resistência ao apagamento normativo das desigualdades foi convertida na ideia de “diversidade”, entendida como uma abordagem positiva, ainda que neoliberal, à inclusão social’ (2013). Esta é a suposta alteração que quero traçar neste artigo: da interseccionalidade enquanto ponto de resistência à interseccionalidade enquanto abordagem neoliberal obliteradora de desigualdades. Críticos desta mudança questionam que, apesar da interseccionalidade ter nascido enquanto crítica radical ao feminismo liberal,[1] o seu uso por uma ampla gama de feministas dedicadas a diferentes projetos políticos e teóricos indica hoje que o conceito se tornou mais elástico do que era inicialmente pretendido. De acordo com os críticos, essa elasticidade serve para desviar a atenção de questões importantes relativamente ao que é a interseccionalidade e se esta terá sido cooptada pelo feminismo liberal através da academia neoliberal.

Com o objetivo de desvendar questões sobre a trajetória da interseccionalidade, este artigo coloca em diálogo algumas das principais análises críticas à interseccionalidade, e argumenta que a genealogia do conceito levanta perguntas relativas ao amplo campo de estudos feministas e aos próprios movimentos feministas em geral. Especificamente, este artigo coloca o foco nas feministas que trabalham a partir das óticas pós-colonial, pós-estruturalista, da crítica racial e marxista, defendendo que tais críticas levantam questões importantes relativamente à trajetória da interseccionalidade. Se o pós-estruturalismo e o pós-modernismo estiveram em voga nas duas últimas décadas, as teorias sobre o feminismo marxista não receberam a mesma atenção. Por esse motivo, a minha atenção a esta vertente da teoria feminista pretende apontar caminhos para que o feminismo marxista possa recuperar o potencial crítico da interseccionalidade – em particular para feministas que operam no Sul Global – pela sua abordagem em conceitos analíticos específicos como o estado-nação e a divisão global de trabalho. Isto não significa que todo o trabalho que utiliza a interseccionalidade foi cooptado, nem que o feminismo marxista é o único caminho que pode reafirmar a natureza radical da interseccionalidade; o objetivo é dar início a uma discussão sobre o que aconteceu com o conceito à medida que ele foi sendo normalizado.

Utilizo o conceito das Teorias Viajantes (Said, 1983) como uma forma de preparar o terreno para essa discussão, argumentando que traçar os caminhos pelos quais a interseccionalidade viajou pode iluminar as críticas que a ela são hoje dirigidas. Pergunto: o que aconteceu com a interseccionalidade ao atravessar o tempo e o espaço, primeiro fazendo o cruzamento do feminismo negro e do feminismo pós-colonial[2] para o feminismo como um todo, e em segundo lugar do feminismo no Sul Global para o Norte Global. É crucial apontar que as viagens da interseccionalidade indicam o poder do próprio conceito, da ‘capacidade geradora da produção teórica vinda das margens’, como notou Gail Lewis (2013: 871). Apesar de se poder argumentar que a expansão da interseccionalidade à corrente dominante demonstra o seu sucesso e poder, é sempre importante traçar os caminhos pelos quais os conceitos são modificados ao viajarem – raramente uma tradução contínua, mas antes uma que envolve mutações passíveis de esvaziar o conceito dos seus significados originais.

Começo por traçar os primórdios da interseccionalidade, e os debates em torno da sua definição e aplicação, de forma a apresentar a primeira linha crítica, nomeadamente que as raízes críticas da interseccionalidade foram apagadas à medida que se afastou do feminismo negro e do feminismo pós-colonial para outros contextos. O objetivo é reconstruir a interseccionalidade como uma abordagem que se generalizou. Na segunda parte analiso o envolvimento do feminismo marxista com a interseccionalidade argumentando que a teorização atual do feminismo marxista pode recuperar o potencial crítico da interseccionalidade. Especificamente, defendo que o foco em questões como o capitalismo, imperialismo, e estruturas amplas e relações de poder ligam as abordagens do feminismo marxista às teorizações e aplicações originais da interseccionalidade. São estas características que fazem do feminismo marxista uma abordagem apropriada às feministas que operam no Sul Global. A última parte do artigo trata da academia neoliberal enquanto mecanismo essencial para traçar as alterações na aplicação da teoria interseccional. A natureza transitória da academia e a mediação das viagens da teoria interseccional pode clarificar em parte a proliferação de aplicações da interseccionalidade que neutraliza o potencial crítico inerente ao conceito. Concluirei revisitando o conceito de Teorias Viajantes e as formas como o trabalho de feministas no Sul Global pode operar de forma a dar novamente destaque às raízes radicais da interseccionalidade.

Os primórdios da interseccionalidade

Sem que se preveja um final, o debate em torno do que é a interseccionalidade já dura há duas décadas. Por um lado a interseccionalidade é louvada enquanto teoria, até mesmo uma grande ou meta-teoria (Davis, 2008), e por outro realçada como uma metáfora (Crenshaw, 1991). Alguns dos defensores da interseccionalidade enquanto teoria chegaram mesmo a considerá-la um novo paradigma para a ‘comunidade científica’ e portanto uma abordagem positivista (Walgenbach, 2010). A ausência de metodologia quando toca à interseccionalidade tem sido tão celebrada quanto criticada. Jennifer Nash (2008) salientou acertadamente que a ambiguidade relativamente a questões metodológicas – com o objetivo de ser tão inclusivo quanto possível – pode levar a problemas adicionais. Além disso, a ênfase colocada nas categorias sociais pode dificultar a teorização da relação destas entre si (Erel et al., 2010: 64).

Outros críticos argumentaram recentemente que em vez de perdermos tempo debatendo o que é a interseccionalidade devemos colocar o foco no que faz – ou seja, dar atenção à sua intencionalidade e performatividade (Cho et al., 2013). Enfatizar a performatividade pode ser especialmente útil ao abordar alguns dos problemas que a interseccionalidade coloca hoje em dia. Como afirmou Sara Ahmed (2007), conceitos e teorias nem sempre funcionam como deveriam, e entender essa performatividade é tão importante quanto entender a ausência dela. Ahmed afirma ainda que ‘ser-se crítico’ é uma alegação que não substitui a crítica em si, pelo que deve ser sempre testada. Se esta abordagem fosse seguida, seria ainda mais necessário questionar o que é feito atualmente em nome da teoria interseccional. Apesar da interseccionalidade ter emergido das tradições do feminismo negro e dos movimentos de libertação pós-coloniais, ela vem sendo gradualmente apresentada como se tivesse emergido do campo de estudos de gênero no Norte Global. Uma representação avançada por Sirma Bilge (2013), Sara Carbin e Maria Edenheim (2013), que se auto identificam pós-estruturalistas.

Alegações feitas sobre origens são reivindicações de poder, como bem nos lembrou Michel Foucault (1970 [1966]). Colocar a origem da interseccionalidade dentro da área de estudos de gênero significa ‘embranquece-la’ e reivindicá-la como produção acadêmica, apagando o seu nascimento a partir da história do feminismo negro e dos movimentos pós-coloniais, e portanto suprimindo a sua articulação fora da academia. Um exemplo disto foi a alegação feita por Nina Lykke, entre outras, de que as feministas europeias já faziam pesquisa interseccional na década de 1970 (2005).[3] Outro exemplo, foi a conferência sobre interseccionalidade que ocorreu em 2009 na cidade de Frankfurt, onde ficaram particularmente claras as cooptações liberais da interseccionalidade, quando as feministas europeias alegaram já usar a interseccionalidade no seu trabalho antes da sua emergência no feminismo negro (Lewis, 2009).

Segundo Sirma Bilge, tentativas de reformular genealogias nunca são inocentes e sempre são políticas: ‘As hierarquias criam-se quando alguém estabelece quais textos são fundadores e incluídos no cânone da tradução; quem é convidado para eventos científicos importantes onde o novo produto de conhecimento é apresentado aos especialistas, e quem é marginalizado; quem é empoderado por essa apresentação e quem não é’ (2013: 407). Entender os debates em torno da interseccionalidade torna-se assim uma forma de entender os vários conflitos existentes na área dos estudos feministas e dos movimentos feministas em geral.

Esta vertente crítica pressupõe ainda que a interseccionalidade se tornou uma das formas dominantes de pesquisa feminista, um processo pelo qual se expandiu para incluir ontologias diferentes e muitas vezes em conflito. No entanto, o suposto consenso em torno da interseccionalidade serve para camuflar esses conflitos e representa uma jogada liberal para higienizar as várias abordagens feministas e apresentar o feminismo como uma área que é simplesmente ‘diversa’, em vez de (também) conflituosa. Este é na realidade o cerne da questão: que a interseccionalidade foi afetada pelas mudanças que dentro do neoliberalismo levaram a um discurso sobre ‘diversidade’, e até mesmo de desigualdade, ao invés de um discurso sobre relações de poder ou dominação.[4] Essas mudanças que expandiram a interseccionalidade tornando-a uma abordagem possível de encaixar em todas as ontologias feministas comprometeu o seu potencial radical. Precisamente pelo motivo que abordagens em conflito usam a interseccionalidade, e porque esta camufla os mesmos, o feminismo acaba por ser apresentado como uma área sem relações de poder, um campo de ‘diversidade’. O que se opõe às origens radicais da interseccionalidade onde tais conflitos e divisões foram centrais para análises feministas e onde as relações de poder – em particular no que diz respeito a raça e classe – não foram camufladas, mas sim centrais. Isto não significa que todos os acadêmicos que usam a teoria interseccional fogem de discussões sobre as relações de poder, mas serve para dizer que cada vez mais acadêmicos que a interseccionalidade fazem referência a linguagens diferentes.

Um outro aspecto importante deste argumento – que a interseccionalidade não surgiu do feminismo negro porque já ‘andava no ar’ – serve como supressor do conceito de raça. Como Crenshaw apontou: ‘Existe uma acepção de que o esforço efetuado para apresentar a interseccionalidade como produto de consumo universal implica a re-marginalização da mulher negra’ (2011: 224). Embora se possa argumentar que a interseccionalidade já ‘andava no ar’ fazendo referência à práxis das mulheres pela libertação colonial, que denunciaram uma ‘tripla opressão’ ou ‘ tripla ameaça’, é difícil utilizar o mesmo argumento relativamente ao feminismo liberal, bastante criticado por ignorar questões relacionadas com raça, classe e sexualidade, para mencionar apenas algumas categorias. Na realidade, a interseccionalidade surgiu no Norte como resposta e desafio de feministas negras e pós-coloniais a teorizações eurocêntricas de feministas, também no Norte, centradas nas experiências de mulheres brancas de classe média. Por esse motivo é irônico situar as origens da interseccionalidade no campo do feminismo liberal como faz Lykke (2005). Bilge (2013) e Carbin e Edenheim (2013) chamaram a atenção para essa apropriação e ao articular uma história diferente da interseccionalidade tornaram novamente centrais as questões de raça e classe na análise interseccional. Além disso, as feministas negras[5] articularam a visão de que raça é uma estrutura que organiza as pessoas globalmente, e não apenas um elemento por vezes relevante e outras invisibilizado.[6]

Entender como o apagamento da categoria raça ocorre pode ser feito traçando as formas como a interseccionalidade viajou, primeiramente a partir da história das mulheres negras e do feminismo negro para o feminismo em geral, e do feminismo do Sul para o Norte Globais. Proclamar que a interseccionalidade emergiu no Norte Global ignora a realidade de que ela surgiu de grupos de mulheres negras marginalizadas no contexto norte-americano e que não viajou para a Europa com a facilidade que se imagina. Num artigo sobre a questão da despolitização da interseccionalidade, Erel et al. argumenta que o potencial crítico da interseccionalidade diminuiu ao viajar para novos contextos, no caso para o Reino Unido e Alemanha, particularmente porque existia uma tendência para ‘rejeitar as raízes do conceito nas lutas anti-racistas’ (2010: 57). Além disso, onde o conceito de interseccionalidade é utilizado e raça é incluída como intersecção, o entendimento de raça pode frequentemente ser eurocêntrico e consequentemente excludente (2010: 57). Erel et al. argumentou que no contexto acadêmico alemão, as contribuições de mulheres negras e mulheres migrantes para o feminismo foram silenciadas: ‘Aqui, a interseccionalidade corre o risco de ser reduzida a uma moda que dá a algumas pessoas o poder de definição ao mesmo tempo que evita a redistribuição do poder discursivo e material. É isto que acreditamos que acontece com a recepção dos debates sobre a interseccionalidade no contexto alemão’ (2010: 62).

À medida que a interseccionalidade viaja para áreas diferentes do globo, a questão do eurocentrismo torna-se ainda mais pertinente. Vrushali Patil chamou a atenção para o fato de que o eixo raça-classe-gênero adquire significados diferentes dependendo do contexto e que isso afeta a capacidade do conceito viajar sem mutações. Ela escreve: ‘Aplicações da interseccionalidade continuam a ser formuladas de acordo com as geografias da modernidade colonial’ (2013: 853). A divisão internacional de trabalho, o colonialismo, o nacionalismo e as formas globais e locais de patriarcado são questões que deveriam ser centrais, mas muitas não o são.

Resumindo, esta linha crítica aproxima preocupações com a forma como a interseccionalidade vem sendo cooptada por algumas linhas do feminismo liberal historicamente contrárias a articulações sobre raça, classe e outras categorias sociais que separam as experiências das mulheres. Apesar das origens da interseccionalidade estarem ligadas às lutas e estudos do feminismo negro e aos movimentos pós-coloniais de libertação, o conceito foi gradualmente se afastando dessas origens radicais e tornou-se uma abordagem generalizada, utilizada por feministas com posições ontológicas e epistemológicas muito diferentes. Esse pluralismo apaga o potencial crítico da interseccionalidade em vez de o realçar. Através de uma articulação da genealogia da interseccionalidade é possível reivindicar as suas origens radicais para recuperar uma análise central que coloque ênfase em questões de raça, classe e sexualidade.

Feminismo marxista e interseccionalidade

Nesta seção defendo que apesar da interseccionalidade ter inicialmente lançado uma importante análise crítica das feministas marxistas, considerando-as redutoras em termos econômicos e mostrando que as categorias de gênero, raça e outras são simultâneas à de classe e não secundárias, à medida que transitou a interseccionalidade foi sendo despolitizada. Por essa razão, uma feminista marxista que leva em conta o ponto de partida da interseccionalidade relativamente à primazia de categorias sociais múltiplas, estabelece uma forma importante de análise interseccional ampliando-a ao demonstrar como essas categorias são criadas, como elas não apenas oprimem mas também exploram, e por quê elas se intersectam. O trabalho de feministas marxistas citado nesta seção leva-nos assim de volta à intervenção crítica da interseccionalidade, e além dela, ao explicar os porquês.

Existem diferenças importantes nas várias abordagens analíticas e teóricas utilizadas pelas feministas marxistas, pelo que é impossível especificar apenas uma. Algumas linhas são economicamente redutoras, vendo raça, gênero, sexualidade e nação como secundárias a classe, o que é um ponto de vista problemático que já foi amplamente criticado.[7] Assim, aqui darei atenção aos feminismos marxistas que abordam a questão da interseccionalidade, pelo que quando falo de feminismo marxista estarei referindo-me  especificamente a essa abordagem. Defendo que são essas as abordagens mais capazes de conceitualizar a complexidade das relações sociais, que mais tratam da questão da opressão material, que levam em conta o contexto internacional como parte integrante da análise, e finalmente, que mais resistem cooptações analíticas neoliberais.

Os alicerces desta abordagem assentam numa análise do enquadramento material que coloca o foco no capital e na produção, assim como nas relações dialéticas entre capitalismo, gênero, raça e outras categorias sociais. Mudanças analíticas e teóricas contemporâneas no marxismo tornam mais complexa a noção da produção e reprodução das relações sociais. O objetivo é o distanciamento de questões como as colocadas por Catherine MacKinnon (1982: 517): ‘O capitalismo criou a dominância masculina ou é uma expressão da mesma?’ Esse tipo de análise feminista marxista concentra-se em ‘sistemas duplos’ – patriarcado e capitalismo – negligenciando raça, sexualidade e outras relações sociais de poder.[8] Análises mais atuais conceitualizam a categoria classe como co-constitutiva de raça, gênero e outras categorias sociais para que nenhuma delas possa ser abordada separadamente. Ao mesmo tempo, a análise deve ser fundamentada no contexto que vivemos atualmente: o capitalismo. No entanto, esse fundamento deve levar em conta que o capitalismo é articulado de formas distintas, dependendo de contextos sociais particulares e não é por isso universal; a sua organização e impactos não são homogêneos. É uma conceitualização que assenta em análises marxistas mais recentes e que se opõe ao economicismo do marxismo ortodoxo onde definições de classe, produção e capital são ampliadas, facilitando assim o entendimento das categorias classe, gênero, raça e outras, como parte integrante da experiência. A produção não se limita aqui à vida material e à propriedade mas também às relações sociais, valores, normas e inclinações.

As lutas contra a exploração capitalista também são uma forma de acolher a solidariedade transnacional. O foco no capitalismo realça a utilidade de uma estrutura marxista para abordar as intersecções das categorias sociais de gênero, classe e raça, e podem assim ser uma forma de retornar às origens críticas da interseccionalidade. Como escreve Bhandar, ‘Como aditivo à teoria marxista, a interseccionalidade leva a um maior entendimento do caráter da opressão do que o que foi desenvolvido pelo marxismo clássico’ (2013). Eve Mitchell, em concordância com Sharon Smith, chama a atenção para o problema do uso atual da interseccionalidade ser incompleto e funcionar como ideologia burguesa que nos impede de entender a identidade como uma forma de alienação (2013). Ela argumenta ainda que a atenção à  identidade, ou às intersecções de identidade, foca mais no particular ignorando a universalidade do modo de produção capitalista. Feministas pós-coloniais em particular têm adotado com sucesso uma perspectiva transnacional que aborda as formas como o imperialismo e o colonialismo organizaram o capitalismo, e como o seu conjunto é fundamentado em relações de gênero específicas e as articula.

Voltando à questão da genealogia, é importante notar que o trabalho das feministas marxistas negras serviu de corretivo útil a conceitualizações simplistas sobre exploração, encontradas em algumas análises ortodoxas marxistas, oferecendo excelentes exemplos do tipo de trabalho inspirado pelo entendimento materialista da categoria gênero. Um exemplo notável é o coletivo Combahee River que em 1977 declarou que apesar de se alinhar com a perspectiva de Marx, via a necessidade de uma análise mais ampla que levasse em conta a condição específica da mulher negra. Nos Estados Unidos desde o início da década de 1920 até aos finais da década de 1980, as feministas negras produziram uma enorme quantidade de trabalhos explicitamente alinhados com o marxismo.[9] São trabalhos frequentemente excluídos do cânone interseccional, mas que fizeram da interseccionalidade uma intervenção crítica de resistência ao poder. No entanto, as viagem da teoria para vários outros locais foi erodindo o seu potencial crítico.

As feministas que trabalham dentro da tradição marxista têm tendência a observar as formas como as relações sociais (incluindo raça e gênero) são co-constitutivas e ligadas à produção.[10] No que diz respeito à questão de abordar a categoria de gênero de uma forma interseccional, isso é um avanço. Enquanto algumas feministas marxistas, como é o caso de Brenna Bhandar (2013), acreditam que a interseccionalidade está ultrapassada e nunca foi um projeto radical, outras continuam a argumentar que ela é útil a abordagens feministas marxistas. Sharon Smith, por exemplo, defende que a interseccionalidade não pode substituir as abordagens marxistas de gênero porque a interseccionalidade é uma abordagem que nos ajuda a entender a opressão e não a exploração (2013–2014). Para entender a exploração, e as ligações entre as diferentes formas de exploração, é preciso situá-las no capitalismo – e é isto que o feminismo marxista faz. O feminismo marxista é uma forma de explicar por quê categorias diferentes se intersectam e como elas surgiram. Como notou Sara Farris, se a interseccionalidade ajudou o feminismo marxista a entender que nem tudo é sobre classe, o marxismo feminista também pode ajudar a interseccionalidade a explicar porque essas intersecções acontecem (2014). Isso pode ser feito através de uma análise das raízes da exploração usando uma metodologia histórica e materialista.

O argumento de que o capitalismo requer desigualdade de gênero vêm sendo feito há décadas por feministas marxistas (Arruzza, 2014). Um exemplo notável de um argumento nesta linha é a teoria de reprodução social, que diz que gênero é constitutivo do capitalismo e não um seu derivado acidental. Como afirmou Maria Dalla Costa, ‘A esposa e o seu trabalho se inserem no processo de produção da mais-valia e são a fundação que permite esse processo’ (citado em Mies, 1998: 31). Vemos aqui a historização das relações de gênero através do capitalismo para demonstrar precisamente como as mulheres não são apenas afetadas mas também constituídas por meio de estruturas variadas. Ao mesmo tempo, para evitar o reducionismo econômico, este tipo de argumento pode ser projetado através de uma ótica interseccional ao se questionar: que mulheres são afetadas e de que formas? É este tipo de questão que pergunta uma feminista marxista que tem consciência das intersecções de múltiplas categorias, e é para esse ponto que volto a minha atenção agora.

Para oferecer uma perspectiva mais substancial da teorização do feminismo marxista que observa as categorias de raça, nação, gênero e imperialismo no capitalismo, volto a minha atenção para as feministas marxistas negras e as feministas do Sul Global. Feministas marxistas negras como Claudia Jones e o Coletivo Combahee River vêem o marxismo como uma ferramenta importante para entender a realidade, mas chamam a atenção para o papel central da raça e do racismo do desenvolvimento do capitalismo. É um trabalho que observa por exemplo as formas como o tráfico de escravos desenvolveu o capitalismo em aspetos específicos e permitiu a sua expansão de forma dramática, mostrando que raça e racismo não são apenas consequências do capitalismo ou contradições secundárias, mas sim parte integrante do funcionamento do próprio capitalismo. Obtemos assim uma análise de como a categoria de raça foi ampliada com a escravidão, e qual a relação desse fato com a expansão capitalista. Tal análise demonstra ainda uma ótica tanto marxista quanto interseccional. Gênero, raça e classe se intersectam nessa análise; mas cada categoria pode também ser situada histórica e materialmente. É significativo que esses conceitos sejam fundamentados na materialidade.

A feminista marxista Selma James falou das maneiras em que podemos entender formas variadas de opressão como raça, enquanto mantemos o sistema capitalista como o contexto subjacente ao fazer sentido da ‘cultura’ de uma forma particular:

“Delimitar a cultura é reduzi-la a uma decoração do cotidiano. A cultura são peças de teatro e poesia sobre os explorados; parar de usar saias curtas e passar a usar calças por exemplo. A cultura é ainda o som estridente do despertador que toca às 6 da manhã quando uma mulher negra em Londres acorda os filhos para os levar para a creche. Cultura é o frio que ela sente esperando o ônibus e o calor que sente lá dentro.” (James and Beese, 1975: 5)

A citação mostra mais uma vez a intersecção de várias categorias, incluindo raça, gênero e classe reunidos no conceito de cultura como este é abrangentemente entendido. Este tipo de trabalho é interseccional e apresenta uma abordagem marxista que permite entender as intersecções.

Capitalismo, imperialismo e gênero têm particular importância devido ao seu alcance global e o trabalho da feminista marxista Silvia Federici vem tentando formular as relações entre eles, dando atenção ao capitalismo enquanto sistema transnacional que inclui o Sul Global como elemento chave nesse sistema. O seu trabalho sobre como organizações, como as Nações Unidas e o Banco Mundial, usam noções de ‘igualdade de gênero’ para aprofundar medidas de austeridade é crucial em muitos contextos no Sul Global. Diz ela que, ‘Se isso não é mais óbvio nas nossas vidas, pelo menos em muitas áreas do Norte Global, é porque as “catástrofes humanas” [acumulação capitalista] que causou têm sido na maior parte exteriorizadas, confinadas às colônias, e racionalizadas como efeitos de atrasos culturais ou apego a tradições erradas e “tribalismos” ’ (Federici, 2012: 104). A acumulação capitalista afeta o Sul Global de formas particulares que depois reproduzem formas diferentes de relações de gênero; é precisamente isso de que trata o trabalho de Federici que une o feminismo marxista e as intersecções de capital, imperialismo, gênero e raça.

As feministas que se dedicam a análises de classe no Sul Global também têm produzido um trabalho que aponta para o papel central do colonialismo e do imperialismo no desenvolvimento capitalista, e como esses dois processos vêm usando raça, nação e gênero para produzir estruturas de classe específicas. Para estas feministas, o imperialismo não é periférico mas sim constitutivo do capitalismo. Estas feministas, tal como as feministas negras, colocam dessa forma uma análise crítica dupla: por um lado a análise de um feminismo que vê o gênero como a principal fonte universal de opressão das mulheres; e por outro lado, uma análise crítica do marxismo que vê o imperialismo e o colonialismo – e consequentemente raça e nação – como periféricos ao sistema capitalista e à sua expansão e desenvolvimento. Especialmente notório neste ponto é o trabalho de Chandra Mohanty, Gayatri Spivak, Nadje al-Ali (2005) e Leila Ahmed (1982, 1992).

O que está em jogo aqui não é apenas a análise feminista, mas também uma forma de solidariedade feminista através das condições materiais. O que temos em comum é a produção e a reprodução das nossas condições materiais e as formas como elas criam categorias sociais, mesmo quando os mecanismos específicos que as possibilitam têm particularidades diferentes. De fato, eu diria que esta forma de solidariedade nos apresenta uma forma mais concreta de organização transnacional do que a solidariedade fundamentada apenas na categoria de gênero. Isto fica particularmente claro após o processo de descolonização onde as forças do nacionalismo e da classe foram instrumentais na criação de solidariedades entre, e além dos movimentos feministas. Além disso, a atual divisão internacional do trabalho representa outra impossibilidade para a solidariedade baseada no conceito universal mulher, uma vez que as condições de vida no Norte Global permitem às mulheres alcançar um padrão de vida mais alto devido à exploração de mulheres e de homens no Sul Global.

O neoliberalismo como contexto

Uma das formas de aglomerar análises críticas sobre a apropriação da interseccionalidade enquanto teoria viajante e o potencial da contribuição das feministas marxistas na reivindicação da radicalidade da teoria interseccional, é abordar a questão do contexto da produção de conhecimento pelas feministas contemporâneas: a neoliberalização da academia. A interseccionalidade emergiu no momento em o ativismo político radical tomou a academia em efeito dominó. Como notou Delia Aguilar ‘Confinar a origem da interseccionalidade a um feminismo profissionalizado nega a historicidade da sua concepção, aprimorada pela intensidade das lutas revolucionárias das organizações das mulheres negras’ (2012). Os movimentos radicais das décadas de 1960 e  1970 nos Estados Unidos são a chave para entender a evolução da interseccionalidade.

Discussões em torno do estado atual da interseccionalidade deveriam levar em conta o contexto da academia neoliberal. Não para reproduzir uma falsa dicotomia entre teoria e prática, ou entre academia e ativismo, mas sim para chamar a atenção para as formas como os debates sobre a interseccionalidade na academia são moldados pelo neoliberalismo. O meu argumento aqui é que esse contexto de neoliberalismo pode ser explicado por um processo de cooptação das características radicais da interseccionalidade e de outros conceitos críticos dentro do feminismo. São cooptações que ocorrem graças a mecanismos específicos inseridos na produção do conhecimento que servem para refrear o academicismo crítico (Fraser, 2006, 2007). É de fato uma questão central em qualquer discussão sobre a interseccionalidade em particular e o feminismo em geral: podemos entender a interseccionalidade como outro exemplo de cooptação e, se sim, como impedir tais cooptações? Se é o caso que toda a intervenção crítica na área do feminismo pode ser ou é cooptada e higienizada, torna-se imperativo que os mecanismos que permitem essa cooptação sejam escrutinados. Para isso seria necessária uma análise genealógica dos mecanismos usados pelo centros de produção do conhecimento para disciplinar e desradicalizar formas de conhecimento que ameaçam o eurocentrismo e os modos neoliberais de produção de conhecimento.

Carbin e Edenheim fazem referência ao contexto acadêmico numa breve discussão sobre a institucionalização da interseccionalidade: ‘A Interseccionalidade está encaminhada para ser institucionalizada e incluída na burocratização contínua da política’ (2013: 234). Bilge conduziu uma investigação mais aprofundada analisando as condições neoliberais que provocaram a mudança da interseccionalidade enquanto ontologia radical a abordagem acadêmica e liberal de gênero:

“Presunções neoliberais criam as condições que permitem que os fundamentos da interseccionalidade se diluam, se disciplinem e se desarticulem. (…) Uma interseccionalidade despolitizada é particularmente útil ao neoliberalismo que reenquadra todos os valores em valores de mercado: as políticas radicais baseadas na identidade tornam-se ferramentas corporativas de diversidade alavancadas por grupos dominantes para atingir objetivos ideológicos e institucionais variados; uma gama de lutas minoritárias são incorporadas na governamentalidade da diversidade, orientada pelo mercado e sancionada pelo estado; ‘diversidade’ torna-se assim uma característica da administração neoliberal, que fornece os ‘princípios administrativos do bom governo e operações de negociação eficientes’; o conhecimento da ‘diversidade’ pode ser apresentado como uma especialização comercializável do entendimento e aplicação de múltiplas formas de diferença simultâneamente – um significante de avaliação sólida e de profissionalismo desejáveis.” (Bilge, 2013: 407)

Um texto importante sobre neoliberalismo e a academia de Chandra Mohanty (2013) argumenta de forma persuasiva que a intersecção de pós-modernismo, feminismo e interseccionalidade produziram efeitos negativos nos estudos de gênero.  As análises feministas pós-modernas são marcadas por apelos a fluidez e nuance, além de uma aversão a análises sistemáticas, que segundo Mohanty prejudicam a causa feminista uma vez que deixam de lado análises das estruturas de poder global. O papel do neoliberalismo nesta situação é claro, pois favorece análises relativas ao indivíduo à custa das estruturas. Mohanty questiona (2013: 971): ‘O que acontece com aquela constituição chave do feminismo “o pessoal é político” quando o político (ou seja, o domínio público coletivo da política) é reduzido ao pessoal?’ Mohanty faz uma análise materialista ao apontar que a política representativa de gênero, classe, raça e outras são separadas dos seus fundamentos materialistas e que dessa forma se destrói a diferença (2013: 972). Nancy Fraser fez ainda uma intervenção importante que indica as formas através das quais o feminismo liberal agiu como ‘serva do capitalismo’ (2013).

Neste ponto torna-se particularmente útil a crítica do feminismo marxista que fornece as ferramentas analíticas com as quais podemos analisar a neoliberalização da academia, os seus efeitos nos estudos feministas e a sua relação com o declínio dos movimentos sociais radicais à volta do mundo. Delia Aguilar (2012), por exemplo, chamou a atenção para as mudanças nos estudos feministas que certamente espelham mudanças na academia como um todo. Ela realça que após a década de 1980 houve alterações nas pesquisas que abordam questões de gênero, raça e classe: ‘A ideia que uma exposição relevante da sua interação exige um entendimento das operações capitalistas foi rapidamente eliminada pelo colapso dos movimentos sociais e o desencadeamento do conservadorismo.’ Ela fala de feministas que discutem classe como uma das ‘intersecções’ das suas análises, mas a definem como designação de salário e de ocupação em vez de situá-la nas relações sociais de produção: ‘Neste ponto, transferimo-nos efetivamente para o âmbito do discurso com cada vez menos alicerces materialistas’ (Aguilar, 2012).

As questões levantadas pelas várias críticas da interseccionalidade são assim intrinsecamente ligadas à neoliberalização e os seus efeitos na produção do conhecimento feminista. Por que razão a interseccionalidade não resistiu à intrusão do neoliberalismo na academia, mas o(s) feminismo(s) marxista(s) sim? Qual o potencial para uma cooptação dentro de vertentes específicas da teorização? A resistência à cooptação do feminismo marxista leva-me a defender que são o(s) feminismo(s) marxista(s) que podem oferecer uma forma de resistir à neoliberalização da teorização feminista e da academia feminista auxiliando o retorno às origens críticas da interseccionalidade. O que é de suma importância para as feministas que trabalham no Sul Global, onde o neoliberalismo teve efeitos mais dramáticos. Intervenções marxistas vindas dessas regiões do mundo, chamam a atenção para o eurocentrismo presente no marxismo ortodoxo e têm por isso procurado usar os princípios teóricos marxistas de uma perspectiva pós-colonial.[11] Em tal análise marxista, o capitalismo não é apenas uma intersecção, mas sim o próprio contexto onde categorias sociais como gênero, classe, sexualidade e raça são constituídos, e é este próprio contexto que passa a ser analisado como sendo constituído por essas categorias. É ainda o contexto onde podemos analisar como se evita e nega legitimidade e discussão a categorias e conceitos específicos.

É aqui que algumas das limitações dos usos atuais da interseccionalidade se tornam especialmente mais claras. A afirmação que o conceito deriva do feminismo liberal demonstra a falta de conhecimento sobre as raízes da interseccionalidade formulada a partir do feminismo negro e dos movimentos de libertação pós-coloniais, dando lugar a utilizações da interseccionalidade incapazes de analisar produtivamente as relações Norte-Sul. Ou seja, a dimensão geopolítica transnacional está frequentemente ausente e a sua teorização não é aprofundada, indicando que tipo de audiência o autor imagina. É neste ponto que o marxismo articulado por teóricos do Sul Global pode ajudar, uma vez que são essas articulações que têm conceptualizado com maior profundidade formas de abordar relações geopolíticas transnacionais. Alguns pontos chave incluem as formas como estado e nacionalismo são teorizados, a inclusão do imperialismo na análise, e as formas como todos os processos políticos e econômicos são abordados a partir das categorias de gênero, assim como de raça e sexualidade, e marcados pelas relações entre classes. Isso não pode ser feito valorizando apenas as experiências das mulheres (e dos homens), mas deve ser aprofundado fundamentando essas experiências no sistema capitalista transnacional, com destaque especificamente nos efeitos do neoliberalismo. Por outras palavras, contextualizar categorias sociais nas relações capitalistas – que criaram a academia neoliberal – significa que o marxismo limita e destaca por si só uma crítica ao neoliberalismo, e que talvez por isso tenha sido menos vulnerável à cooptação pelo neoliberalismo acadêmico.

Conclusão

Edward Said revisitou a sua tese original sobre teorias viajantes (Said, 2001) e articulou uma possibilidade diferente: que à medida que as teorias viajam, elas não só perdem as suas vantagens radicais como também podem cumprir um potencial radical (Carbado, 2013: 812). Defendi neste texto que abordagens marxistas ao feminismo, vindas do Sul Global são uma forma de cumprir o potencial radical inerente à interseccionalidade, à medida que a teoria viaja pelo planeta, e que portanto essa é uma forma de recapturar o potencial crítico presente quando a interseccionalidade emergiu das lutas e estudos do feminismo negro e dos movimentos de libertação pós-coloniais.

As críticas crescentes que se levantam contra a interseccionalidade deveriam levar a uma discussão sobre a genealogia e a trajectória da abordagem e as suas várias utilizações hoje em dia. De acordo com essas críticas, a teoria interseccional tornou-se uma abordagem geral cooptada pelo feminismo liberal destinada a políticas de identidade, sobre o pretexto de ser uma abordagem crítica de gênero. É importante lembrar que nos estudos de identidade e nas políticas de identidade, as identidades sociais são vistas como intersecções que se reforçam entre si. No entanto, esta é uma perspectiva que poucas vezes se amplia a uma análise sobre desigualdades estruturais e relações de poder, ou que identifica o capitalismo como o contexto onde essas identidades sociais se constituem. Isto de deve ao fato de que a identidade é frequentemente teorizada como sendo o resultado da ‘diversidade’, externa a, ou de um poder pré-existente, não fundamentada na materialidade.

Richard Seymour defendeu que, em última instância, a interseccionalidade é uma forma de colocar um problema teórico e não uma solução, e a sua utilidade depende das amplas articulações teóricas onde o conceito está mergulhado (2013). Quando algumas dessas amplas articulações teóricas são neoliberais, também o conceito de interseccionalidade o é. Acredito que é útil lembrar este ponto em discussões sobre o atual estado do pensamento feminista no que toca à interseccionalidade. É também por esta razão que abordagens de feminismo marxista são particularmente úteis enquanto intervenção contra a cooptação neoliberal da interseccionalidade. Variações do feminismo marxista a partir do Sul Global chamam a atenção para as formas como classe, gênero, raça e outras relações sociais não são apenas inseparáveis mas também intrínsecas às relações geopolíticas de poder no mundo. Abordagens que destacam a materialidade e as estruturas imperialistas e capitalistas globais têm o potencial de ir além da variação liberal da interseccionalidade porque elas identificam as intersecções das categorias sociais e fornecem uma análise de como essas marginalizações se desenvolvem historicamente e como podem ser desmanteladas. Como afirmou Seymour, precisa-se de uma solução teórica que tenha um elemento de praxis (2013). Erel et al. colocaram o mesmo problema chamando a atenção para o contexto: ‘“Interseccionalidade” pode ser uma receita descritiva cujo valor analítico só se faz sentir ao fundamentá-la no contexto crucial anti-racista e pós-colonial. Assim, uma análise crítica das relações de poder surge como pré-condição para entender os efeitos, relações e interdependências de poder e dominação’ (2010: 64). Parece-me que aqui também, o feminismo marxista é particularmente útil.

Reunir diferentes linhas críticas da interseccionalidade de forma a realçar alguns pontos cegos da sua utilização atual pode ajudar as feministas a uma discussão sobre a genealogia e trajetória do conceito, assim como a direção a tomar. Além disso, levanta questões sobre o destino das teorias viajantes feministas, e como elas se relacionam com as estruturas capitalistas e imperialistas que condicionam a produção de conhecimento atual. Isto tem amplas ramificações para os estudos feministas como um todo. Questões de poder e exclusão são centrais no academicismo feminista desde a sua origem. Nós feministas temos de permanecer consistentemente atentas às formas como estabelecemos linhas de inclusão e exclusão no nosso trabalho e no nosso ativismo, e nas formas como utilizamos conceitos específicos para incluir/excluir. A interseccionalidade pode ser um conceito extremamente útil se abordar as relações de poder. Mas para que isso seja possível, é preciso que levemos a sério as críticas contra a sua apropriação na academia feminista neoliberal.

Agradecimentos

Uma versão deste artigo foi apresentada em 2015 na conferência de Frankfurt organizada por Nikita Dhawan: Diferença que não faz diferença. Os meus agradecimentos pela oportunidade de apresentar o meu trabalho nesta conferência e pelos comentários extremamente úteis que recebi de Nikita Dhawan. Os meus agradecimentos a Vanessa Thompson e Rekia Jibrin pelos seus comentários construtivos e pelo seu apoio, e um agradecimento muito especial a Karim Malak pelo seu feedback aos vários rascunhos deste artigo, e pelo seu apoio e encorajamento.

Financiamento

Esta pesquisa não recebeu nenhum apoio específico de nenhuma agência pública, comercial, ou do setor não-lucrativo.

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Notas:

[1] Uso a seguinte definição de feminismo liberal: uma vertente de teoria feminista que tem como objetivo atingir igualdade em algumas áreas da sociedade, particularmente através de reformas legislativas. O seu foco é a aquisição de direitos individuais com o eventual objetivo de providenciar, a todas as mulheres, liberdade de escolha.

[2] Nota da tradutora: No inglês, ao longo do artigo a autora utilizou o termo Feminismo do Terceiro Mundo algumas vezes para se referir ao Feminismo Pós-Colonial. Na tradução para o português optei pela segunda terminologia apenas, por ser mais recente, e por esta tradução ser destinada a leitores do Sul Global, antes denominado pela terminologia de ‘terceiro mundo’, expressão essa que possui uma conotação negativa. Eis a nota da autora relativamente à opção que fez no texto, em termos destas terminologias: “Utilizo os termos Terceiro Mundo, assim como Norte Global/Sul Global, seguindo as cronologias do seu uso no academicismo feminista. Na década de 1980, quando o conceito de interseccionalidade foi formulado, o que hoje chamamos de Sul, era conhecido como Terceiro Mundo. Os conceito de Norte Global/Sul Global são mais recentes.

[3] Relativamente à questão apresentada sobre a emergência da interseccionalidade a partir dos estudos de gênero, ver: Haritaworn (2012), Lewis (2009, 2013), Petzen (2012), Tomlinson (2013).

[4] Para uma excelente discussão sobre essas mudanças ver: Wendy Brown (1995).

[5] Ver: Angela Davis (2011), Patricia Hill Collins (2002).

[6] No entanto, neste ponto é necessário fazer referência às críticas pós-coloniais de que o transnacionalismo é frequentemente ignorado por teóricas interseccionais no Norte, assim como a contra-crítica contundente de que as teorias pós-coloniais dão demasiada importância ao transnacional às custas do nacional (Lazarus, 1999, 2011).

[7] Em especial ver: Cinzia Arruzza (2014) e Sara Farris (2014).

[8] Os debates dentro do feminismo marxista sobre a teoria de sistemas duplos foram tão extensos que tiveram um impacto negativo na área: para ter uma ideia consulte Barrett (2014).

[9] O exemplo mais conhecido é provavelmente Angela Davis. Outro exemplo notável foi o Partido dos Panteras Negras, que se identificava com a ideologia comunista e incluía muitas das mulheres trabalhando com questões de gênero, raça e comunismo.

[10] Para uma excelente discussão sobre marxismo e feminismo, consulte: https://viewpointmag.com/2015/05/04/gender-and-capitalism-debating-cinzia-arruzzas-remarks-on-gender/

[11] Consulte em particular: Amin (1977, 1980).

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Citação completa do Artigo: 
Salem, S., 2016. Intersectionality and its discontents: 
Intersectionality as traveling theory. 
European Journal of Women's Studies, 
DOI.1350506816643999. 

Este artigo foi originalmente publicado em inglês por Sara Salem. 
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Para mais informação e para usar este artigo contate a autora via 
@saramsalem ou pelo email salem@iss.nl.
Imagem de Destaque:
Fotografia de um mapa antigo (amarelado com as localizações escritos a negro)
da faixa de terra correspondente ao Norte de África e Península Arábica. 
Sobre a imagem, o titulo em inglês 'Postcolonialism and its Discontents' 
(O Mal-Estar do Pós-colonialismo) e o lema do website, 'A blog by Sara Salem. 
Postcolonialism, Marxism, feminism and other conspiracies 
(Um blog de Sara Salem. Pós-colonialismo, Marxismo, feminismo e outras 
conspirações). Clique na imagem para ler o blog da autora.

 

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