Uma Feminista Interseccional Contra o Feminismo Imperial

Este artigo foi publicado originalmente em Inglês por Julie Hall e publicado na revista on-line magazine The Body is Not an Apology, em 26 de Fevereiro de 2015. Foi depois traduzido para Espanhol por Demonio Blanco, e publicado em 14 de Maio no blog El Demonio Blanco de La Tetera Verde, onde a conTRAmare.net o encontrou. A versão portuguesa usa as mesmas imagens publicadas pela versão espanhola.

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Jovem Muçulmana da Malásia.

Recentemente, durante uma sessão de treinamento do meu setor trabalhista que ocorreu em um país de maioria muçulmana, um colega, branco, deu início a uma conversa sobre projetos de desenvolvimento sob uma perspetiva de gênero. “Estas mulheres ainda sofrem muita opressão”, disse, “Devemos tomar a iniciativa de iniciar estes projetos de mulheres, e temos de começar junto das autoridades locais – compostas por homens – para ajudá-los a entender estes assuntos.”

Não sendo uma mulher branca, e como feminista interseccional, esse comentário me deixou de pé atrás. Senti um calafrio familiar – uma frustração de apertar os punhos e um arrepio de medo descendo pela espinha. No entanto, e apesar do que tive vontade de gritar sobre imperialismo, imposição, paternalismo, sustentabilidade e dinâmica de poder, limitei-me a respirar fundo e abordar um pequeno aspecto do seu enorme e problemático discurso. “Bom,” disse tentando manter a voz firme, “Sabe, existem autoridades locais que não são homens.”

Ele sorriu me olhando com condescendência. “Os papeis de cada gênero funcionam de forma diferente aqui, querida,” respondeu ele. “Os homens têm mais poder que as mulheres. Entende? Não é assim na sua cultura também?”.

É isto que é o Feminismo Imperial, também conhecido, mais corretamente, por Orientalismo de Gênero. É o tipo de feminismo centrado em narrativas brancas que oblitera a agência das mulheres que não o são. Coloca o ocidente num pedestal de empoderamento de gênero ignorando assim a misoginia sistemática das nações ocidentais. Generaliza as culturas não ocidentais. Promove a dicotomia do homem “escuro” e perigoso e do homem branco “salvador”. É o feminismo dos “brancos” (especialmente dos homens, mas não só) tentando salvar as mulheres de cor. Apropria os movimentos dos direitos das mulheres ao serviço do paternalismo e do império. Por esta razão precisamos da interseccionalidade: lutar contra ideologias opressivas que usam e abusam da ideia de justiça para perpetuar injustiças. Não podemos permitir que se continue a explorar ideias de igualdade de gênero para perpetuar o racismo.

Em seu livro fundador Orientalismo (1978), Edward Said escreveu sobre o conceito opressivo ocidental relativamente “à diferença básica entre Oriente e Ocidente enquanto ponto de partida para elaborar teorias, épicos, novelas, descrições sociais e relatos políticos sobre o Oriente, seus povos, costumes, ideias, destino, etc.” O Orientalismo é a construção interesseira que o Ocidente faz do “Oriente”. O Orientalismo de gênero é a construção que o Ocidente faz do Oriente como inferior e necessitando de “intervenção” ocidental e “ajuda humanitária”.

O Orientalismo de Gênero do referido colega é sem dúvida nocivo, apesar de envolto em uma capa de boas intenções. Ele não se achava racista ou abusivo, e nem mesmo um pouco ofensivo. Na verdade acreditava ter as melhores intenções. Ele realmente acreditava (e provavelmente continua acreditando) que é liberal e empático, que suas palavras e ações lutam contra a opressão em vez de contribuir para ela.

Infelizmente esta é uma das formas insidiosas em que as pessoas com privilégios contribuem para o imperialismo cultural. “Estas mulheres ainda sofrem muita opressão”, disse ele – não “Todas as mulheres”, não “ mulheres de todo o mundo.” As suas palavras alterizam as mulheres não ocidentais e determinam que o sexismo é um problema exterior ao ocidente. Estas mulheres de outro país são oprimidas. Têm de suportar isso passivamente. Estes comentários são enganosos e nocivos.

E não apenas isso, ele nega a todas as mulheres que não são brancas qualquer agência e se coloca, e aos ocidentais que trabalham nas regiões em desenvolvimento, no papel de heróis. “Nós, nós, nós, nós, nós,” repete. Nós temos de tomar a iniciativa. Nós temos de falar com as autoridades. Nós temos de começar estes projetos. Nós temos de ajudá-los a entender. Porque, obviamente, eles não conseguem resolver nada sem ajuda do Grande Herói Branco.

Pessoalmente, a sua condescendência comigo é mais do que irritante. É representativa de como as pessoas com privilégios tratam as pessoas marginalizadas. O seu desrespeito pela minha experiência de trabalho era evidente e, lamentavelmente, previsível. Um homem branco humilhando arrogantemente uma mulher de cor não é nem novo, e nem chocante.

No entanto, a sua alterização da minha pessoa se cruza com outro eixo deste problema sistemático. Na sua abordagem imperialista, as nações não ocidentais são selvagens e misóginas – em contraste com o ocidente iluminado e civilizado. Não só isso: as mulheres no ocidente, que como eu não são brancas, também saem prejudicadas desta justaposição. Neste contexto mulheres como eu não pertencem jamais no mundo ocidental.

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“Ouço o som de … lixo misógino!”

Eu sou do mundo ocidental, de língua inglesa, trabalho numa nação não ocidental, e portanto não me foge a realidade de que contribuo para um legado do imperialismo, independentemente das minhas outras intersecções. Essa é outra discussão complexa, mas é importante reconhecer a minha relação com estas dinâmicas de poder. No entanto, o meu privilégio neste eixo não nega a marginalização que enfrento de gente como o meu colega de trabalho. A marginalização é condescendente tanto a nível individual quanto sistêmico.

Por causa do Orientalismo de Gênero, também incluiu a minha cultura da ásia oriental na generalização que fez. “Entende? Não é assim na sua cultura também?”.

Eu quis responder sarcasticamente que sim, porque aparentemente a misoginia é desenfreada apenas em culturas “exóticas”.

A verdade é esta: Não existe cultura ou nação isenta da misoginia, em todos os seus aspetos. Em todas as culturas a que pertenço – e são algumas – a discriminação de gênero é um tema vasto e profundamente enraizado. E no entanto, o Orientalismo de Gênero cria um binário de alteridade de outras culturas onde supostamente estas são os únicos e últimos redutos de selvajaria, enquanto as culturas de poder institucionalizado são as únicas que avançaram.

“Os papeis de cada gênero funcionam de forma diferente aqui,” afirmou. Usar a palavra “diferente” indica uma diferença horizontal, mas uma diferença onde existe uma disparidade de poder. Nas suas palavras está implicado que ele acredita que a cultura ocidental é superior às outras. Edward Said escreveu, “O Oriente e o Islã têm uma espécie de status extra real e fenomenologicamente reduzido que os mantem fora do alcance de todos exceto do perito ocidental. Desde o início da especulação ocidental sobre o oriente, a única coisa que oriente não conseguia fazer era representar-se a si mesmo.”

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“Você tem razão. O trabalho doméstico é trabalho de mulheres claro. Eu gosto particularmente de lavar roupa.”

Quando argumentei este ponto mais profundamente, ouvi que estava sendo inocente por ignorar a opressão das mulheres e das jovens nos países islâmicos. “Então não devemos fazer nada para ajudar?”

Eis o que “devemos fazer para ajudar”: ouvir e seguir a liderança das pessoas a quem o assunto afeta diretamente. O feminismo imperial é perpetuado por salvadores brancos que pensam saber mais. As mulheres muçulmanas não precisam de ser salvas por homens brancos. Não precisam de organizações como a FEMEN que tentam abafar a agência das mulheres muçulmanas sob a diretriz “feminismo.” E não precisam de mulheres de cor não muçulmanas como eu.

Nós, mulheres que como eu não somos brancas temos lutado as nossas próprias lutas desde o início. Sempre acolhemos aliados – aliados mesmo, que ouvem e seguem e não querem ser o centro, não “aliados” que atropelam as palavras, se impõem e se fazem de heróis. As pessoas de qualquer comunidade sempre a conhecem melhor que os de fora, não importa quão bem intencionados ou idealistas forem esses forasteiros. Enquanto alguém originária da Ásia Oriental, denuncio e condeno abertamente o sexismo e racismo das minhas comunidades, mas a minha vocalização desses problemas não dá o direito às pessoas não afetadas por eles de liderarem discussões sobre o assunto. Da mesma forma, enquanto não muçulmanos e não nativos do país em que trabalhamos, nem o meu colega e nem eu temos o direito de liderar discussões que dizem respeito aos problemas dos muçulmanos. O meu trabalho é principalmente defender.

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“Quem? Eu? Terrorista?”

E eu defendo que as mulheres nem ocidentais, nem brancas, ergam suas vozes contra o imperialismo, o orientalismo e o racismo disfarçados de ajuda bem intencionada. Denuncio o meu colega pela sua ignorância e falta de análise destas dinâmicas de poder porque estou cansada desta injustiça mascarada de libertação. Em Cultura e Imperialismo, escreve Said, “Assim como ninguém está fora e além da geografia, ninguém está completamente livre da luta sobre a geografia. Essa luta é complexa e interessante porque não trata apenas de soldados e canhões mas também ideias, formas, imagens e imaginários.” Assim como é violenta a guerra declarada de uma nação a outra, as narrativas que constroem as mulheres fora do ocidente, como damas em apuros precisando de um herói ocidental para as salvar, são uma forma de violência. Se você realmente se importa com a luta contra a desigualdade, não permita que a violência do Feminismo Imperial se imponha sobre a necessidade por um feminismo interseccional e um amor radical.

[Imagem do topo: A foto mostra uma jovem muçulmana da Malásia com uma hijab laranja e negra, uma blusa azul e casaco preto, pousando junto do ‘Paraíso dos Pássaros’ e segurando uma folha com a mão.]

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