A Influência Africana na Música Brasileira: Samba

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Introdução

Apesar da forte influencia que a herança afro-brasileira exerce em nós, pouco sabemos da sua extensa contribuição para a cultura brasileira. Sem dúvida, o samba é o estilo e gênero musical mais popular de sempre produzido para o carnaval no Brasil. A palavra samba deriva da palavra Bantu, semba, ou umbigo. Na África, aldeias inteiras se reuniam em círculo para cantar e dançar, uma oportunidade para cada um demonstrar a habilidade e conhecimento que possuía da sua herança, tanto na dança quanto na música. Após a participação de cada indivíduo, era a vez de um novo membro ser convidado com o padrão de dança semba ou “toque de umbigo”.

Como a palavra batuque, samba foi inicialmente associada com qualquer tipo de celebração popular[i]. Há quem acredite que o lundu, uma dança de origem africana no Brasil transportada nos navios negreiros vindos de Angola, é o verdadeiro progenitor musical do samba[ii]. Outros teorizam que escravos e ex-escravos levaram uma forma prematura de samba, da Bahia para o Rio no século XIX “devido ao declínio de fortunas originadas das plantações de tabaco e cacau na Bahia, e por causa da criação de duas novas leis: A Lei do Ventre Livre de 1871 (que declarava livres todas as crianças nascidas de escravos), e a abolição da escravatura em 1888”[iii]. Assim, ocorreram migrações internas e a população afro-brasileira teve a oportunidade de levar suas tradições musicais para o Sul.

Batuque
Batuque (1835), de Johann Moritz Rugendas.

Outra teoria sobre as raízes do samba está associada aos ranchos, a palavra portuguesa que descreve um grupo de pessoas. No início do século passado, surgiu a primeira organização de um rancho, e a ideia de organização foi substituída pela palavra escola, que foi a primeira definição de uma associação de bairro. Com o objetivo de alcançar uma ampla audiência brasileira, os membros dos ranchos (constituídos principalmente por afro-brasileiros) mudaram o nome, e no inicio da década de 1920, os ranchos passaram a ser chamados de escolas de samba, atingindo rapidamente a comunidade brasileira em geral. Os ranchos foram originalmente criados por organizações de negros na Bahia para a recreação de afro-brasileiros: “A sua origem é geralmente creditada aos baianos que chegaram ao Rio com as suas procissões religiosas”[iv]. A composição de Chiquinha Gonzaga (1847-1935) Ó abre alas de 1899 foi a primeira melodia escrita para os ranchos e foi interpretada pela Associação Rosa de Ouro. Este novo tipo de música, chamada mais tarde de “marcha-rancho”, não usava instrumentos de sopro no inicio, embora utilizasse muita percussão. Posteriormente, a música foi adotada por bandas de metais. É ainda importante lembrar que outros estilos rítmicos derivados da África e do samba se desenvolveram em regiões diferentes no Brasil, paralelamente ao samba. Estes estilos musicais ficaram frequentemente relegados a regiões menores e a música ficou isolada relativamente aos grandes centros do Rio de Janeiro e Salvador.

Samba

Sem dúvida, o samba é a expressão musical mais bem conhecido do Brasil. Sinônimo de música brasileira tornou-se um termo que engloba uma grande variedade de estilos populares: Samba carnavalesco, samba de breque, samba de exaltação, samba de gafieira, samba de partido-alto, samba de quadra, samba de terreiro, samba-batido, samba-canção, samba-choro, samba-chulado, samba-corrido, samba-de-chave, samba-lenço, samba-enredo, samba exaltação, sambalada, sambalanço, samba-rural[v]. Estas formas são variações entre o lento e o rápido e incorporam estruturas líricas distintas. O desenvolvimento destes estilos musicais dependia, em grande parte, de cada comunidade individual. Instrumentos musicais, padrões rítmicos, e estilo composicional variavam de cidade para cidade e de região para região. O samba foi inventado e se desenvolveu principalmente por descendentes africanos, tornando-se a palavra padrão que descrevia a música e a dança de um grande número de comunidades por todo o Brasil. A migração interna frequente da população negra das regiões do norte para as do sul, especialmente para o Rio de Janeiro, criou um ambiente favorável a novos desenvolvimentos de estilos musicais. No Estado de São Paulo, o samba era dançado não só por afrodescendentes, mas também por mulatos e caboclos[vi].

No inicio do século XX, compositores da cidade do Rio de Janeiro como Pixinguinha, Donga, Sinhô, e João da Baiana juntavam-se no bar da Tia Ciata para compor samba e outros gêneros musicais. Não são claros os motivos da escolha do lugar; muitos acreditam que a fama de excelente cozinheira e doceira de Ciata contribuiu muito para isso. “Seu bar logo se tornou ponto de encontro dos sambistas dos morros e de músicos profissionais, assim como daqueles que tinham feito a transição de um para o outro”[vii]. Em 1923, com a chegada ao país da primeira estação de rádio, o samba tornou-se o estilo musical da moda e o mais popular de sempre. E assim, se plantaram as sementes da revolução no morro de São Carlos.

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Tia Ciata (1854-1924)

Ismael Silva, um dos principais compositores de samba do Brasil do inicio da década de 1930 explicou como a expressão escola de samba chegara até ele. Os sambistas costumavam ensaiar num terreno abandonado perto de uma escola de formação de professores. De acordo com Ismael Silva, os membros da comunidade costumavam dizer, “É daqui que saem os professores[viii]”. Os sambistas de São Carlos decidiram que, apesar de não serem professores, ninguém sabia mais de samba que eles. Assim nasceu a ideia da escola de samba. Nesse sentido, escola significa o método de aprender música por meio de integração e participação comunitária, onde todos os membros de um bairro partilham entre si suas experiências sócio-musicais.

Organizar uma escola de samba (na realidade o nome ‘escola’ representa um conjunto) é um trabalho que envolve dezenas de milhar de pessoas (músicos, bailarinos, artesãos, criadores de fantasia, e outros contribuidores). Todos os anos no Rio de Janeiro as escolas de samba escolhem temas diferentes. Têm também um coordenador de samba ou diretor carnavalesco e um tema ou samba-enredo, que é a música de samba baseada no tema desse ano. Os temas são normalmente políticos, históricos, ou pagam tributo a uma pessoa específica. Em 1997, pela primeira vez na história do carnaval no Rio, foi introduzido um tema referente a culturas fora do Brasil. A Escola de Samba da Rocinha, um dos maiores conjuntos do Rio de Janeiro, apresentou o tema “A Viagem Encantada de Zé Carioca à Disney. O novo tema alargou os horizontes da história do samba e deu inicio ao conceito de como utilizar outros temas não tradicionais para explorar o samba no Brasil.

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A Viagem Encantada de Zé Carioca à Disney, Escola de Samba da Rocinha, 1997.

Novos Desenvolvimentos

Quem não gosta de samba bom sujeito não é

É ruim da cabeça ou doente do pé

Dorival Caymmi, “Samba da Minha Terra”

Samba é um fenômeno social conhecido de praticamente todos os brasileiros. Uma forma musical vibrante, que se distingue pelo crescente canto responsorial, com ênfase na interação percussiva e ritmo sincopado. Formulado em 2/4 e com uma estrutura de estrofe e refrão com sincopas que se interligam e usam o tempo forte no segundo tempo do compasso – são características que fazem do samba um autêntico gênero musical brasileiro. Samba e carnaval são palavras próximas e praticamente evoluíram juntas. Desde o início, o samba foi quase sempre tratado como um verbo. Um verbo principalmente conjugado no presente é uma celebração individual através da participação comunitária. Num artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo, Theo de Barros, que redige sobre música brasileira, afirmou que ao longo da década passada, o samba mudou seu gingado. Theo assegura que o samba é para ser dançado e não marchado. Talvez o aumento da velocidade da batida do surdo de marcação tenha corrompido a essência rítmica, que pretendia ser dançada sincopada e com ginga. No entanto, os brasileiros concordam que um dos objetivos do samba e do carnaval é fazer com que as pessoas esqueçam relógios e agendas em casa e saiam para cantar e dançar.

Afro Samba

O termo quilombo deriva da língua Bantu-Angola e se refere a um lugar de habitação. Em 1740 o rei de Portugal, falando ao Conselho Ultramarino[ix] definiu quilombo “. . . toda habitação de negros fugidos, que passem de cinco, em parte despovoada, ainda que não tenham ranchos levantados e nem se achem pilões nele”. Como núcleo de resistência, os quilombos operavam como estados mantendo seus próprios governos e leis e não dependendo do resto do Brasil para existirem. A maioria dos habitantes dos quilombos consistia de descendentes africanos, além de outros grupos étnicos perseguidos que não se conformavam com as restrições e leis importas por Portugal durante o período colonial brasileiro. Em quase meados do século XVII e até ao inicio do século XVIII, os quilombos resistiram às tentativas do governo para destruí-los.

Os principais grupos étnicos/culturais nos quilombos pertenciam aos grupos Yoruba, Fon, Ewe, e Axânti (grupos sudaneses). Os quilombos foram essenciais para a preservação da sua música e a sobrevivência da sua cultura. De fato, a música era um fator importante na unificação de grupos afrodescendentes diversos que apenas nestas áreas isoladas e de refúgio puderam expressar a sua herança cultural. No início do século XVIII, o governo conseguiu finalmente acabar com os quilombos. Seus “cidadãos” foram devolvidos às suas habitações anteriores ou enviados para a prisão. No entanto, o governo brasileiro deu inicio a um processo de emancipação gradual que culminou com a abolição da escravatura pela princesa Isabel a 13 de maio de 1888 – um ano antes da proclamação da República do Brasil.

O desenvolvimento da tradição do samba teve várias ramificações no campo da música. O carnaval brasileiro e outras celebrações adotaram vários ritmos africanos e influências culturais de seus descendentes. Por exemplo, no Estado da Bahia, emergiram muitos grupos, incluindo Império da África, Filhos de Odé, Filhos de Obá, Pandecos da África e Embaixada Africana. Embora esses grupos partilhassem os ritmos africanos, eles se distinguiam pelas diferenças regionais africanas de onde eram originários e pela forma como suas culturas tinham sido integradas na vida brasileira. A influência diversificada da cultura africana no Brasil tornou-se óbvia em 1897 na Bahia, quando os baianos produziram uma celebração de carnaval similar às celebrações africanas em Lagos na Nigéria. Desde a década de 1970, quando muitos jovens afro-brasileiros se deixaram fascinar pela música de James Brown, dos Jackson Five, e outros músicos afro-americanos, estes movimentos constituíram a base do desenvolvimento musical e cultural afro-baiano. Tornaram-se fonte de orgulho para o resto do Brasil.

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“Filhos de Ghandi”, Salvador da Bahia.

A contribuição musical recente das tradições africanas no Brasil que corre paralela às escolas de samba no sul é notória nos afoxés e blocos afros, inspirados por um orgulho renovado nas raízes africanas e pela onda dos movimentos de independência em África. Afoxé se refere tanto ao instrumento musical, uma cabaça revestida de uma rede de miçangas, quanto à manifestação autêntica de danças, ritmos e liturgia Gegê-Nagô (Ewe-Yoruba)realizada fora dos terreiros de candomblé. Os bloco-afro indicam a consciência da herança afro-brasileira por meio da música; o próprio termo indica a celebração da música. Assim os afoxés e bloco-afro estão relacionados. Os Afoxés diferem relativamente à instrumentação e a ênfase que colocam em países e eventos culturais diferentes. No repertório baiano, esses conjuntos introduzem vários ritmos. Estes são compostos por formas e técnicas de tocar percussão e outros instrumentos musicais. Os baianos conseguem reconhecer a música de qualquer conjunto local, porque os padrões rítmicos diferem de região para região, assim como a construção dos instrumentos. Por exemplo, um percussionista pode fazer e tocar um tambor estreito, feito de metal e com a superfície de couro. Outro, proveniente de outra região pode fazer e tocar um maior, com estrutura de madeira e superfície revestida de pele de cabra. A ideia por trás da diferenciação é a busca de identidade como forma de expressão da individualidade.

Nos últimos vinte anos, a música da Bahia foi influenciada pelo candomblé e pelos ritmos afro-caribenhos. Bob Marley, Jimmy Cliff e Peter Tosh estão entre os cantores que se tornaram populares no Brasil. A isto se adicionam outros ritmos afro-caribenhos como a salsa, reggae e merengue. Por exemplo, o ritmo reggae da Jamaica é semelhante ao da Bahia. Os brasileiros chamam estes novos movimentos de samba-reggae. A música e dança herdadas destes estilos misturados estão presentes em vários segmentos da sociedade de hoje, especialmente nos sons de conjuntos novos como Timbalada, Filhos de Ghandi, Olodum, Ilê Aiyê, Banda Mel, e Ara Ketú. Estes conjuntos contribuíram não só para os estilos musicais da década de 1990, mas também influenciaram uma variedade de outras posturas musicais. A canção Fragile de Sting, o álbum Rhythm of the Saints de Paul Simon, e o mais recente trabalho de Michael Jackson Olodum, uma banda brasileira, todos exibem esta influência de ritmos afro. Muito da forma de vida e comportamento brasileiro são ditados por esta nova geração de música e de músicos. Podemos, talvez, dizer que no Brasil, as classes sociais têm algo em comum: o mesmo gosto e apreciação pela música do Brasil, que não é nem afro-brasileira e nem europeia, mas antes, brasileira.

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Notas:

[i] Enciclopédia da Música Brasileira: Erudita, Folclórica e Popular 1977: 684

[ii] McGowan & Pessanha 1991: 28

[iii] Ibid

[iv] Schreiner 1993: 104

[v] Enciclopédia da Música Brasileira: Erudita, Folclórica e Popular 1977: 685

[vi] Giffoni 1973: 111

[vii] Guillermoprieto 1990: 26

[viii] Ibid

[ix] A 14 de Julho de 1652, o rei de Portugal ordenou a instauração do Conselho Ultramarino para auxiliar a administração das colônias. O Conselho antecedeu o Ministério da Ultramar e o Ministério das Colônias. No entanto, os efeitos óbvios da centralização para as colônias ultramarinas não ocorreu até à tomada de poder do Marquês Pombal em pleno século XVIII.

References:

Barros, Theo de. 1996. Cenários são Montados para os Videoclips. São Paulo: Caderno2 de O Estado de São Paulo.

Cascudo, Luís da Câmara.1980. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: Edições Melhoramentos.

Giffoni, Maria Amália Corrêa. 1973. Danças Folclóricas Brasileiras. São Paulo: Edições Melhoramentos em Convênio Nacional do Livro – MEC.

Guillermoprieto, Alma. 1990. Samba. London: Jonathan Cape Ltd.

Marcondes, Marcos Antônio. 1977. Enciclopédia da Música Brasileira: Erudita, Folclórica e Popular. São Paulo: Art Editora Limitada.

McGowan, Chris & Pessanha, Ricardo. 1991. The Brazilian Sound: Samba, Bossa Nova, and the Popular Music of Brazil. New York: Watson-Guptill Publications.

Schreiner, Claus. 1993. Música Brasileira – A History of Popular Music and the People of Brazil. Translated from the German by Mark Weinstein. Ney York: Marion Boyars Publishers.

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